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Viagens que transformam


terramundi - 7 de março de 2019 - 0 comments

Quênia, 2017.

A intenção não era estar ali de passagem, mas viver, me entregar com muita alma a tudo aquilo.

“Desde muito pequena, meu coração sempre bateu forte pela África. Imensa e intensa. Na contramão do que mostrava a mídia, minha imagem do continente era a alegria, as cores, as danças. De alguma forma, sabia que ali eu teria muitas respostas para o que procurava profissional e espiritualmente. Estava certa. Em 2017, me mudei para Nairóbi, capital do Quênia, onde passei os seis melhores meses da minha vida.

 

 

Parece não haver dificuldade – ou são vistas com outras lentes por quem mora ali.

Tem beleza por todas as partes. Nas centenas de barracas de frutas, nas ruas não asfaltadas e sem calçada, na loucura do trânsito, na diversidade de culturas. Mas tem beleza, acima de tudo, no povo. Quase como uma regra, todos têm olhos brilhantes e sorriso fácil.

 

 

As oportunidades não chegam aos corredores estreitos de Kibera, sempre entre os maiores assentamentos humanos do mundo.

Foi essa a sensação que tive passando com dificuldade por entre as estreitas ruelas que levavam à casa do Victor, nosso porteiro do prédio. Durante um de seus poucos dias de folga, Victor quis me apresentar (com orgulho) sua casa, sua família, sua igreja. Agendamos para domingo pela manhã. Mal sabia eu que aquele dia mudaria tudo dentro de mim.

Com aquele sorriso leve e os olhos expressivos, Victor foi nos buscar no ponto de ônibus, na entrada da favela. Andamos por Kibera, que é cheia de vida, com centenas de pessoas pra baixo e pra cima tomando conta de suas vidas. Fico triste em pensar que suas realidades são vistas por muita gente mundo afora como oportunidade de fazer dinheiro ou para ganhar alguns “likes” em redes sociais. Para muitos, não é interessante que essas pessoas se afastem das condições subumanas às quais estão submetidas. Os ares assistencialistas que permeiam o assentamento incentivam a infeliz e segregadora visão de que o homem branco é um ser superior, um herói. Não sei explicar a sensação de pular montanhas de lixo, me espremer em corredores de esgoto onde crianças correm descalças e entrar na casa mais simples e receptiva em que já estive. Ali, naquela caixa sem janelas, mora uma família, cujo patriarca tem apenas uma refeição por dia –  seu salário, apesar das longa horas de trabalho, não é suficiente para alimentar a todos, então prefere deixar de comer para sobrar à filha.

“Tire os sapatos antes de entrar, queremos dignidade dessa porta pra dentro, pelo menos”, o que me ocorreu enquanto tirava minhas galochas para entrar na casa. Todos os vizinhos são bem-vindos, a qualquer hora. Ivy entra pela porta vestindo um casado cor de rosa (para muito inverno!) claramente uns 2 números maiores que o dela. Apesar da pouca idade, uma personalidade e tanto! Sem falar uma palavra em inglês, ela é tão expressiva quanto o pai.

Havia uma movimentação ao redor. Todos colocam as melhores roupas, com turbantes combinando com o restante . A propósito, as famílias, por vezes, são identificadas pelas estampas de suas roupas, já que os tecidos são comprados em pacotes fechados de muitos metros. Comecei a entender que o dia do serviço, como chamam o culto, é quase como um evento.

Subindo por entre as vielas apertadas para chegar à igreja, uma senhora na minha frente segurava um bebê no colo, que, apesar do olhar curioso,  chorava desesperadamente quando olhava pra mim. “Ele nunca viu uma pessoa branca na vida”.

A igreja era, na verdade, um container que, durante a semana, servia de escola para as crianças. Aos domingos, as paredes, cheias de letras do alfabeto, eram cobertas com um tecido furado, as carteiras empurradas para o fundo da sala e uma cruz pendurada na frente. Um tradutor de swahili para inglês foi chamado especialmente para que pudéssemos entender as três horas de orações.

Victor se levantou, foi até o altar improvisado e, num testemunho emocionado, disse: “Estas pessoas foram as primeiras que me olharam como ser humano. Vou rezar para vocês pro resto da vida”.

Dançamos, cantamos, choramos, dentro de um container, com pessoas que nunca haviam nos visto antes. Entendi que aquilo era o que de mais valioso o Victor tinha na vida. E ele fez questão de compartilhar.

 

 

 

Conexões que rendem boas histórias e amizades eternas. 

Um dia antes de deixar o país, ele estava na minha porta, chorando igual criança, com a cabeça baixa, sem conseguir me olhar nos olhos. Afinal, na cultura dele, homem não pode chorar, demonstra fraqueza. Ele disse que eram lágrimas de saudade com gratidão. Pedi que ele me prometesse ensinar inglês à Ivy, pois sabia que essa oportunidade abria portas num futuro próximo. Nos abraçamos apertado e, meses depois, recebo um áudio dela cantando e falando algumas pequenas frases em inglês. Um homem de palavra.

Os aromas, as cores, os barulhos, os silêncios. Tudo era intenso. Lágrimas de alegria com as histórias compartilhadas e choros solitários de quem não se conforma com o que vê. Foi ali que me senti gigante e muito pequenininha ao mesmo tempo. Tudo era imenso. A natureza, o aprendizado, a injustiça. Deixei o Quênia e, nos lugares por onde passei, tudo continuou igual. Mas aqui não. Uma revolução aconteceu. Me transformei tão profundamente que não sei dizer. Tudo mudou. Me encontrei. “

 

A profissional de Relações Internacionais viveu por seis meses no Quênia para fazer pós-graduação em Inovação Social pelo Instituto Amani, em 2017.

 

 

 

 

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