As lendas da Islândia: o invisível como parte da paisagem
O que explica a relação dos islandeses com elfos e seres ocultos? Conheça as histórias que ajudam a contar a alma desse destino.
Há países onde o folclore vive nos livros, preservado como curiosidade histórica. Na Islândia, ele vive nas estradas.
A crença no huldufólk, o “povo oculto”, remonta a registros de aproximadamente mil anos atrás, quando os primeiros relatos apareceram em poemas vikings. Desde então, a tradição nunca deixou de fazer parte da vida cotidiana da ilha. As estradas, em alguns trechos, são projetadas para respeitar o espaço onde supostamente vivem esses seres, e há pescadores que afirmam que tempestades anunciam sua chegada. Acredita-se que o huldufólk habite rochas e penhascos encantados. São presenças discretas que coexistem com o mundo visível, mas que se tornam protetoras de seus lares quando perturbadas.

O caso mais conhecido aconteceu em 2015, quando um projeto de pavimentação no campo de lava de Gálgahraun precisou ser revisto para preservar territórios ligados a essas crenças. Não foi um caso isolado: em 1971, a construção de uma estrada que ligaria Reykjavík ao nordeste do país enfrentou resistência semelhante, e a solução encontrada foi mover uma rocha 15 metros para que os elfos que ali viviam pudessem permanecer. A Islândia é, possivelmente, o único país do mundo onde o governo já se referiu oficialmente à existência de elfos em documentos públicos.
Para quem quer se aprofundar nesse universo, a Álfaskólinn — a Escola Islandesa de Elfos, em Reykjavík — reúne décadas de testemunhos compilados sobre o tema e oferece aulas abertas a curiosos e viajantes interessados em entender essa tradição por dentro.
Histórias contadas em noites longas

O inverno islandês é extenso e escuro, e foi justamente nesse contexto que as tradições orais do país se consolidaram. Nas antigas casas de turfa construídas pelos vikings, famílias se reuniam em torno do fogo enquanto o vento cortava do lado de fora. E era ali, nessas noites compridas, que as histórias passavam de geração em geração.
Essa tradição narrativa não ficou no passado. Os manuscritos islandeses do século XII, hoje preservados na Universidade da Islândia, em Reykjavík, registram os mitos nórdicos que décadas mais tarde inspirariam parte do imaginário pop contemporâneo, incluindo os deuses que hoje povoam roteiros de cinema muito além das fronteiras nórdicas. A história da ilha e sua mitologia, nesse sentido, não são assuntos separados: são a mesma narrativa, contada em capítulos diferentes.
Não é por acaso que a Islândia mantém, até hoje, uma das maiores taxas de escritores por habitante do mundo. A tradição de contar histórias atravessou os séculos e se converteu em literatura e, aos poucos, essa produção tem ganhado mais espaço em traduções para o português. Os Peixes Também Sabem Cantar, de Halldór Laxness — único islandês a vencer o Nobel de Literatura — é um dos títulos que chegaram ao Brasil nos últimos anos. A Saga de Njál, uma das mais importantes narrativas medievais islandesas, também tem edição em português, embora encontrá-la exija um pouco mais de garimpo em sebos e plataformas de livros usados.
Uma paisagem que parece pedir histórias

Campos de lava, fiordes profundos, geleiras e céus que se movem à noite: a paisagem islandesa tem uma qualidade quase irreal, que ajuda a entender por que o território sempre alimentou esse tipo de imaginário. Não é difícil compreender por que, em um lugar assim, encontrar lendas seja tão natural quanto encontrar paisagens.
A aurora boreal é parte dessa mesma atmosfera: um fenômeno que, mesmo hoje, mantém algo de sobrenatural na forma como ilumina o céu do norte. Para quem viaja na temporada certa, presenciá-la é uma das experiências mais marcantes que a Islândia oferece.
Viva essa história de perto

As lendas da Islândia são parte de como o país se relaciona com sua própria paisagem, sua literatura e sua identidade. Conhecer essas histórias antes da viagem transforma a forma de olhar para cada campo de lava, cada penhasco, cada noite sob o céu do norte.
Na Terramundi, desenhamos um roteiro que vai além das paisagens e que também atravessa essas histórias.