No Vale dos Gigantes: uma viagem para o sul do Peru que poucos conhecem
Viagem para o sul do Peru: de Arequipa ao Cânion de Tinajani, um roteiro de sete dias entre vulcões, condores e povos mais antigos que os incas.
Para a maioria dos viajantes, viajar para o Peru é percorrer um triângulo: Lima, Cusco e Machu Picchu. É um roteiro extraordinário, mas deixa de fora uma parte inteira do país. Ao sul, entre vulcões nevados e o Altiplano, há cidades construídas com pedra vulcânica, vales cultivados por povos anteriores ao império inca e cânions onde a paisagem ainda é explicada por lendas. É um Peru mais silencioso, mais vasto e igualmente rico em história. Esta é a viagem para o sul do Peru que propomos.
Viajar para Arequipa: a cidade feita de vulcão

Arequipa foi fundada em 1540 aos pés de três vulcões: o Chachani, o Pichu Pichu e o mais famoso deles, o El Misti, um cone quase perfeito de mais de 5.800 metros. Antigas erupções deixaram ao redor da cidade uma rocha branca e porosa, o sillar, fácil de talhar e resistente aos terremotos. Foi com ela que se ergueram igrejas, casarões e arcadas. Daí o apelido de Cidade Branca e o centro histórico tombado pela UNESCO.
O sillar também guardou a mistura de mundos que formou o Peru. Na fachada da igreja de La Compañía, os jesuítas encomendaram santos e anjos, mas os canteiros indígenas e mestiços esculpiram ao lado deles frutas, flores e rostos andinos. Ali dentro, a Capela de San Ignacio, conhecida como a Capela Sistina de Arequipa, tem paredes cobertas por pinturas de plantas e aves da floresta.
A poucas quadras, o Mosteiro de Santa Catalina é uma cidade dentro da cidade. Fundado em 1579, tem ruelas azul-cobalto e terracota, claustros floridos e celas onde freiras viveram em clausura por quase quatro séculos. Só em 1970 abriu as portas ao público. Na saída, vale caminhar até o Mercado San Camilo e pedir um queso helado, sorvete de leite, canela e coco que, apesar do nome, não tem nada de queijo. À noite, numa picantería tradicional, o rocoto relleno, pimentão andino recheado e gratinado, mostra por que Arequipa disputa com Lima o título de capital gastronômica do Peru.
A hospedagem é no Cirqa, um antigo mosteiro do século XVI restaurado com o mesmo sillar da cidade. São poucos quartos e um terraço de onde se veem os vulcões ao fim da tarde.
Pelo caminho das apachetas
A estrada para o Colca atravessa a Reserva Nacional de Salinas y Aguada Blanca, onde vicunhas pastam em campos dourados. Depois sobe até o passo de Patapampa, a pouco mais de 4.900 metros, o ponto mais alto da viagem. Ali, centenas de pequenas torres de pedra se espalham pelo terreno. São as apachetas, que os viajantes empilham há séculos como oferenda aos apus, as montanhas sagradas, pedindo proteção para seguir caminho. Do mirante, num dia limpo, é possível ver vários vulcões de uma só vez.
Cânion do Colca: o vale que guardava grãos

O nome Colca vem de qollqa, palavra quéchua para os depósitos onde se armazenavam alimentos. Os construtores desses depósitos foram os Collaguas, povo que ocupava o vale muito antes da chegada dos incas. Nas cavernas de Pumunuta ainda se veem os potes de argila e palha que funcionavam como geladeiras, cavados na encosta onde o vento mantinha os grãos frescos.
Os Collaguas dividiam o vale com os Cabanas, e os cronistas espanhóis registraram um costume curioso: cada povo moldava o crânio das crianças para imitar o vulcão de onde acreditava ter vindo. Os Collaguas alongavam a cabeça, à semelhança do Collaguata. Os Cabanas a achatavam, como o Hualca Hualca. Hoje essa diferença sobrevive de outra forma, nos chapéus bordados que as mulheres do vale ainda usam. Em Chivay, as bordadeiras costuram flores, pássaros e estrelas nesses trajes festivos.
Os terraços agrícolas pré-incas descem em degraus até o fundo de um dos cânions mais profundos do planeta, mais que o dobro do Grand Canyon. Na Cruz del Cóndor, as manhãs são o melhor momento. Quando o sol aquece as paredes de rocha, os condores-dos-andes, com até três metros de envergadura, sobem do abismo sem bater as asas, levados apenas pelas correntes de ar quente.
Ali perto, nas encostas do Monte Mismi, acima dos 5 mil metros, está uma das nascentes mais remotas do Rio Amazonas. A água que percorrerá o continente até o Atlântico começa sua viagem a poucas horas do Pacífico.
A base no Colca é o Puqio, perto da vila de Yanque, com poucas tendas e casinhas de adobe, fogão a lenha e refeições cozidas no fogo aberto. Toda noite, um menu de experiências define a manhã seguinte: uma subida leve até a Fortaleza de Chimpa para um café da manhã diante do cânion, uma pedalada entre vilas coloniais ou, para os mais preparados, a expedição ao Mismi.
Cânion de Tinajani: gigantes de pedra, estrelas escuras

Mais ao leste, o Altiplano se abre em horizontes cada vez mais largos até o Cânion de Tinajani, a quase 4 mil metros. Há milhões de anos, um lago cobria a região. A água e o vento esculpiram as paredes de arenito vermelho em formas que os moradores explicam como gigantes transformados em pedra. O próprio nome vem de uma história de amor, a de Tina e Ajani, contada pelos guias ao longo das trilhas.
Ao entardecer, uma caminhada leva até a Qolle Centenária, a única árvore que cresce dentro do cânion. À noite, longe de qualquer luz, o céu revela uma astronomia diferente da nossa. Os povos andinos também desenhavam constelações nas manchas escuras da Via Láctea, as nuvens de poeira entre as estrelas. Assim surgiram a lhama, cujos olhos são duas estrelas brilhantes do Centauro, a serpente e o sapo.
A estadia sugerida é no Tinajani, uma antiga fazenda de ovelhas cujas construções de adobe viraram um pequeno vilarejo, com seis acampamentos espalhados entre as rochas, cada um com deck e banheira quente para observar o céu, e refeições servidas ao pé do fogo. O lodge entrou nas listas de 2026 da Travel + Leisure e da Condé Nast Traveler.
Os arredores guardam outras surpresas. Na cidade de Pucará, as famílias ainda colocam no alto dos telhados um par de toritos de cerâmica, para proteger a casa e trazer prosperidade. Mais adiante crescem as Puya raimondii, plantas que podem levar quase um século para florescer. Quando florescem, erguem uma espiga com milhares de flores, considerada a maior inflorescência do reino vegetal, e depois morrem.
Altitude no sul do Peru: subir devagar
A ordem deste roteiro foi pensada para o corpo. Dos 2.300 metros de Arequipa aos cerca de 3.400 do Colca e aos 3.900 de Tinajani, a altitude chega aos poucos. Ainda assim, recomendamos dias tranquilos, muita água e o chá de muña, a erva que os andinos usam contra o mal de altitude.
Como planejar sua viagem para o sul do Peru

São sete dias, com chegada por Arequipa, a uma hora e meia de voo de Lima, e saída por Juliaca, porta de entrada do Lago Titicaca e caminho natural para Cusco. Quem parte de São Paulo voa direto até Lima em cerca de cinco horas e faz a conexão para Arequipa no mesmo dia. A viagem funciona sozinha ou como prólogo de uma jornada maior pelo Peru. No Colca e em Tinajani, o formato é tudo incluso, com refeições, bebidas e excursões em pequenos grupos. Guias em português e experiências privativas podem ser organizados à parte. Como as propriedades têm pouquíssimas acomodações, o ideal é reservar com antecedência, sobretudo para a alta temporada.
Quando viajar para o sul do Peru. De maio a outubro, na estação seca, os dias são ensolarados, o céu fica perfeito para observar as estrelas e os condores aparecem com mais frequência. Quem decide viajar em junho ou viajar em julho deve levar camadas extras: as noites no Altiplano podem ficar abaixo de zero. De novembro a abril, as chuvas da tarde deixam os terraços do Colca e o fundo de Tinajani verdes como um oásis.
Benefício 2027. Durante todo o ano, quem reservar de 7 a 9 noites entre as propriedades da coleção Andean no sul do Peru ganha uma noite em Lima. A partir de 10 noites, são duas. Estender a viagem até o Titilaka, às margens do Titicaca, é a forma mais natural de chegar lá.