Laba Fanjove: a história da ilha na Tanzânia onde o mar voltou a respirar
Conheça Laba Fanjove, ilha privada na Tanzânia onde um pacto com pescadores fez os corais renascerem. História, curiosidades e quando viajar para lá.
Na costa sul da Tanzânia, uma comunidade de pescadores descobriu algo que contraria toda a lógica: pescar menos fez o mar devolver mais. Durante anos, o polvo era capturado todos os dias no entorno de uma pequena ilha de coral. Até que se fez um acordo. Hoje, a pesca acontece só em poucos dias do ano, e o resultado surpreendeu até os mais céticos: as capturas anuais quadruplicaram, chegando a 49 toneladas em 2024, e o lagoa se regenerou por completo, com o retorno de espécies pelágicas, tubarões inclusive
Essa ilha se chama Fanjove. E a história de como o mar voltou a respirar ali é, talvez, a melhor razão para incluí-la na sua próxima viagem para a Tanzânia.
Uma ilha de um quilômetro sob a luz de um farol alemão

Fanjove é minúscula. Com apenas cerca de 1 km de comprimento e uns 400 metros de largura, a ilha de areia e coral é coberta de coqueiros e cercada de praias brancas. Ela faz parte do arquipélago de Songo Songo, um colar de ilhotas quase desabitadas no Oceano Índico, ao sul de Dar es Salaam.
O que denuncia a passagem humana por ali é pouco, e por isso mesmo fascinante. Apenas o farol do século XIX e alguns vestígios arquitetônicos de um antigo assentamento de pescadores sugerem que a ilha já foi ocupada por algo além da vida selvagem. O farol foi erguido no tempo da África Oriental Alemã: o sinal luminoso foi estabelecido em 1894, e a torre atual data de 1924. Hoje restaurado, ele virou o coração social da ilha, e à noite os hóspedes podem se sentar sob a luz do farol iluminado ou em volta de uma fogueira na praia.
Uma curiosidade que poucos viajantes conhecem: Fanjove é também um dos últimos refúgios do raro caranguejo-dos-coqueiros, o maior artrópode vivo do planeta, que pode pesar até 4 kg.
O pacto que mudou o destino do recife

A virada de Fanjove não veio de uma conversa. A operadora Laba Laba, que administra a ilha, firmou com os pescadores locais um acordo considerado inovador: a pesca de polvo, antes diária, passou a ser restrita a três dias, três vezes por ano.
O princípio é parecido com o das closures temporárias que comunidades costeiras de Madagascar popularizaram nas últimas duas décadas: dar ao polvo tempo para crescer e se reproduzir. A costa ganhou um cinturão de silêncio. A pesca foi totalmente proibida num raio de 600 metros ao redor da ilha e, depois de alguns anos, os corais recuperaram uma vitalidade notável, ao contrário de outras áreas do recife que seguem degradadas.
De 600 para 1.500 metros: a novidade que vem por aí
O plano é ainda mais ambicioso. O objetivo é transformar o lagoa de Fanjove e as águas ao redor na maior área marinha integralmente protegida da África Oriental. Em troca, os pescadores de Songo Songo recebem estrutura para pescar melhor, não mais: uma unidade de refrigeração e uma conservaria local, para incentivar uma pesca sustentável que respeite cotas e ciclos reprodutivos. O projeto começou com apoio da USAID e, após a saída abrupta do parceiro, passou a ser conduzido de forma autônoma pela própria Laba Laba.
É turismo de conservação no sentido mais literal: a presença do viajante financia um mar mais vivo, e a comunidade é parceira, não figurante.
Laba Laba: a borboleta que protege a natureza

O nome tem poesia. Laba Laba significa borboleta em iorubá, e a proposta da marca é aumentar a biodiversidade da paisagem e da fauna africanas. E o compromisso vai além do discurso: a empresa destina 30% de seus lucros a projetos de conservação e ajuda humanitária na Tanzânia, com atenção especial a crianças com deficiência.
É o tipo de bastidor que transforma uma estadia de luxo em algo maior. Quem se hospeda em Fanjove está, sem perceber, ajudando um recife a se reerguer.
Como é viver alguns dias numa ilha privada na Tanzânia

É luxo descalço. São 18 acomodações: 12 Beach Villas, 2 Family Beach Villas, 2 Coral Villas e a Coral Manor, com dois quartos, todas construídas com materiais naturais e voltadas para o mar.
Os dias seguem o ritmo da maré. Dá para mergulhar direto da praia ou explorar os 11 km de recife, com pináculos submarinos e jardins de coral-repolho, sair em safári marinho atrás de golfinhos-rotadores e nariz-de-garrafa, ou fazer snorkel num banco de areia isolado enquanto um peixe grelhado é preparado para o almoço. Às vezes os golfinhos aparecem em grupos enormes: com um pouco de sorte, são encontrados bandos de cem animais ou mais.
Para quem gosta de história, há ainda a visita às ruínas de Kilwa, porta de entrada para o legado das antigas cidades-Estado suaílis que dominaram o comércio do Índico por séculos. E para famílias, uma boa notícia: não há idade mínima, e o kids club, supervisionado por dois membros da equipe, oferece atividades lúdicas e educativas.
Quando viajar para Fanjove: o calendário da ilha

Saber o momento certo faz toda a diferença numa viagem para a Tanzânia. Entre junho e outubro, o clima é seco e quente, com temperaturas entre 16 °C à noite e 35 °C durante o dia, o que faz de viajar em julho, viajar em agosto ou viajar em outubro escolhas excelentes. É também a época de baleias: a observação de jubartes acontece de julho a outubro, e há passeios a Mafia Island para nadar com tubarões-baleia entre julho e novembro, conforme o clima.
As chuvas curtas de novembro e dezembro trazem uma espécie de primavera à ilha, com plantas e flores despertando, seguidas de insetos e uma enorme variedade de aves. De novembro a março, uma rede de trilhas leva a pontos discretos de observação das aves migratórias. Só fique atento: durante as chuvas longas, de meados de março a maio, o lodge fecha.
Bush & beach: Fanjove depois do safári
Fanjove ganha ainda mais sentido como o capítulo final de um safári pelo sul da Tanzânia, um circuito menos movimentado que o Serengeti. A combinação entre a poeira dourada da savana e o azul-turquesa do Índico é, para muitos viajantes, a forma mais completa de viajar para a Tanzânia.
O que Fanjove ensina ao viajante
Fanjove impressiona pelo que escolheu ser. Ali, uma comunidade aceitou pescar menos para ter mais, uma operadora decidiu dividir seus lucros com a natureza, e um recife que parecia condenado voltou a brilhar.