Geoffrey Bawa no Sri Lanka: uma viagem pela arquitetura que deixa a floresta entrar
Conheça a arquitetura de Geoffrey Bawa no Sri Lanka: Lunuganga, Kandalama e Lighthouse. Um roteiro de design e natureza para sua viagem para o Sri Lanka.
Diz a lenda que, para enxergar o telhado de um templo distante a partir da varanda de casa, Geoffrey Bawa mandou baixar uma colina inteira. Pode parecer capricho de um homem excêntrico, e talvez fosse. Mas é também a melhor síntese de uma vida dedicada a desenhar não apenas edifícios, mas a maneira como olhamos para a paisagem.
Bawa não queria que a arquitetura disputasse a atenção com a natureza. Ele queria que ela emoldurasse a natureza. Por isso, quem faz uma viagem para o Sri Lanka percebe rapidamente que o nome dele está por toda parte: em hotéis à beira-mar, em jardins secretos, no Parlamento do país. Entender a arquitetura de Geoffrey Bawa é, de certa forma, entender a própria ilha.
E o momento não poderia ser mais oportuno.
Por que todo mundo está falando de Geoffrey Bawa em 2026
Em 26 de setembro de 2026, o Vitra Design Museum, na Alemanha, inaugurou Geoffrey Bawa: Architecture for the Senses, a primeira grande retrospectiva sobre o arquiteto em duas décadas. São mais de 250 peças do acervo do Geoffrey Bawa Trust, entre desenhos, maquetes, móveis, filmes e fotografias, com cenografia da arquiteta Lina Ghotmeh e imagens inéditas do fotógrafo Iwan Baan. A mostra fica em cartaz até 28 de fevereiro de 2027 e é uma coprodução com o M+, de Hong Kong.
O diretor do museu, Mateo Kries, resumiu bem o fenômeno: na Ásia, do Japão à Índia, Bawa é tratado como um herói. No Ocidente, ele está sendo redescoberto agora, como referência para uma arquitetura social e ecologicamente responsável, muito antes de “sustentabilidade” virar palavra de ordem.
Ver os desenhos num museu europeu é um privilégio. Mas viver dentro deles, no lugar para onde foram pensados, é outra experiência.
Quem foi o homem que inventou o modernismo tropical

Nascido em Colombo em 1919, Geoffrey Bawa começou como advogado. Só depois dos 30 anos decidiu estudar arquitetura em Londres e se formou já perto dos 40, idade em que muitos colegas estavam consolidando carreira. Talvez por isso nunca tenha seguido regras de escola.
Ao longo de cinco décadas e mais de 200 projetos, ele fundiu os princípios do modernismo com a tradição construtiva cingalesa: telhados de telha cerâmica, pátios internos, varandas profundas, corredores abertos à brisa, materiais locais. O resultado ganhou o rótulo de modernismo tropical, embora o próprio museu Vitra lembre que a visão de Bawa era bem mais complexa do que qualquer etiqueta.
Há um detalhe pouco conhecido que ajuda a entendê-lo: Bawa quase nunca trabalhava sozinho. Seus projetos são inseparáveis de artistas como Ena de Silva, que revitalizou a arte do batik no país, do escultor Laki Senanayake e da designer têxtil Barbara Sansoni. Arquitetura, para ele, era obra coletiva.
Lunuganga: o jardim de uma vida inteira


Se existe um lugar para começar uma viagem pela arquitetura de Geoffrey Bawa, é Lunuganga, perto de Bentota, na costa sudoeste. Em 1948, Bawa comprou ali uma plantação de seringueiras abandonada e passou os 50 anos seguintes transformando-a num dos jardins mais bonitos do século 20. Terraços, espelhos d’água, esculturas escondidas na vegetação e sinos que chamavam para o chá da tarde: tudo foi pensado como um laboratório onde ele testava ideias antes de levá-las a outros projetos.
Hoje, Lunuganga funciona como uma pequena hospedagem de apenas nove quartos, administrada pelo Geoffrey Bawa Trust em parceria com a Teardrop Hotels. Dá para dormir na suíte que era do próprio Bawa, até pouco tempo fechada a hóspedes.
E há uma história extraordinária escondida num canto do jardim. A casa que Bawa projetou para Ena de Silva em Colombo, nos anos 1960, iria ser demolida em 2009. O Trust decidiu salvá-la: arqueólogos e engenheiros desmontaram a construção peça por peça, numeraram cada tijolo, telha e janela, transportaram tudo em caminhões por cerca de 90 km e remontaram a casa dentro de Lunuganga. A desmontagem levou três meses; a reconstrução, seis anos. Os números ainda estão gravados no piso, discretos, para quem souber procurar. Hoje ela pode ser reservada como villa.
Bem perto fica Brief, o jardim do irmão de Geoffrey, Bevis Bawa, outro paisagista talentoso. Visitar os dois no mesmo dia é perceber como a mesma família produziu duas maneiras diferentes de domar, e de não domar, a floresta.
Heritance Kandalama: o hotel que a selva engoliu

No coração do Triângulo Cultural, perto de Dambulla, o Heritance Kandalama é talvez a obra mais radical de Bawa. Em vez de construir no topo do penhasco, com vista panorâmica e destaque na paisagem, ele encostou o hotel na rocha, num corpo de quase 1 km de extensão e sete andares que se abre como as asas de um pássaro.
Diz-se que apenas três árvores foram derrubadas durante a obra. Os pilares foram pensados para que a vegetação crescesse sobre a fachada, e hoje o prédio está praticamente coberto por trepadeiras, usadas como escada pelos macacos, os hóspedes mais assíduos. Pedras enormes atravessam os corredores, o hotel não toca nas águas do reservatório de Kandalama e os animais circulam livremente por baixo da estrutura. Não à toa, foi o primeiro hotel da Ásia a receber certificação LEED.
Da varanda, a vista alcança a rocha de Sigiriya e o antigo reservatório, além de 233 espécies de aves residentes. É a base perfeita para explorar cinco sítios declarados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Lighthouse, Colombo e o Parlamento: o roteiro se completa

Em Galle, o Jetwing Lighthouse recebe os hóspedes com uma das escadarias mais fotografadas do país: uma espiral em que figuras de bronze criadas por Laki Senanayake encenam a batalha de Randeniwela, de 1630, entre portugueses e cingaleses. Uma aula de história na subida para o quarto. De lá, é fácil emendar o forte de Galle, outro Patrimônio da UNESCO.

Em Colombo, a casa de Bawa na 33rd Lane, conhecida como Number 11, nasceu da junção de quatro pequenos bangalôs e virou um labirinto de pátios e jogos de luz. Ela pode ser visitada com agendamento e recebe hóspedes em pouquíssimos quartos. Ali perto, o Parlamento do Sri Lanka, em Sri Jayawardenepura Kotte, parece flutuar sobre um lago artificial, com seus pavilhões de cobertura de cobre. Não é aberto à visitação livre, mas a vista da margem já vale o desvio.
Um passeio guiado pelas obras de Bawa em Colombo, com especialistas do Trust, é o tipo de experiência que transforma uma escala na capital num dos momentos mais lembrados da viagem.
Quando viajar para o Sri Lanka

O Sri Lanka tem duas monções, o que significa que sempre há um lado da ilha com tempo bom. Para um roteiro de arquitetura que combine Colombo, Bentota, Galle e o Triângulo Cultural, o ideal é viajar em janeiro, fevereiro ou março, quando a costa sudoeste e o interior estão secos e ensolarados. Viajar em dezembro também funciona bem, mas é alta temporada e as tarifas sobem. Entre maio e setembro, a costa sudoeste recebe as chuvas, e o leste da ilha passa a ser a melhor opção de praia.
Um aviso de editor: com apenas nove quartos em Lunuganga e poucos em Number 11, a disputa é grande na alta temporada. Para viajar para o Sri Lanka entre dezembro e março, o ideal é começar a planejar com seis a oito meses de antecedência.
Arquitetura como forma de viajar
Bawa dizia que suas obras precisavam ser vividas, não apenas vistas em fotografia. Talvez por isso o Sri Lanka seja um destino tão particular para quem gosta de design: aqui, o hotel não é só o lugar onde se dorme, é parte do roteiro. Acordar com o som dos macacos em Kandalama, tomar chá numa varanda de Lunuganga ou subir uma escada que conta a história da ilha é viajar por dentro da cabeça de um dos maiores arquitetos do século 20.
Quer desenhar uma viagem para o Sri Lanka guiada pelo olhar de Geoffrey Bawa? Fale com a gente e comece a planejar.