Por aqui, a Páscoa costuma chegar com um almoço em família, ovos de chocolate e um domingo mais lento. Mas, quando olhamos com mais atenção — e com a curiosidade de quem viaja — percebemos que ela é muito mais do que isso.
Mais do que um feriado, é uma travessia simbólica. Um tempo que fala de renascimento, de ciclos que se encerram e recomeçam. E talvez por isso, em diferentes partes do mundo, ela tenha se transformado em rituais que dizem menos sobre uma data e mais sobre a forma como cada cultura enxerga a vida, a morte, a natureza e o tempo.
Finlândia
Em terras finlandesas, a Páscoa tem um toque inesperado. Nos dias que antecedem a data, crianças saem pelas ruas vestidas como pequenas bruxas: roupas coloridas, rostos pintados e vassouras nas mãos.
De porta em porta, elas oferecem ramos de salgueiro decorados com penas e papel crepom, como um gesto simbólico de proteção e renovação para o ano que começa. Em troca, recebem doces, chocolates ou pequenos presentes. Há até uma rima tradicional recitada nesse encontro, como um feitiço suave que mistura brincadeira e desejo de prosperidade.
“Virvon, varvon, tuoreeks terveeks, tulevaks vuodeks; vitsa sulle, palkka mulle!”
(Tenho um ramo mágico para um novo e saudável ano; um ramo para você e um doce para mim!)
A tradição combina referências cristãs — ligadas ao Domingo de Ramos — com antigos imaginários pagãos do norte da Europa, onde histórias de bruxas e a chegada da primavera se entrelaçam. Enquanto isso, dentro das casas, crianças plantam sementes e observam os primeiros brotos surgirem, como quem aprende, desde cedo, a reconhecer os sinais de recomeço.
Grécia
Na Grécia, a Páscoa — ou Pascha — é o momento mais importante do calendário. As celebrações atravessam toda a semana e culminam no Sábado Santo, quando as igrejas se enchem de pessoas aguardando a chamada “Luz Sagrada”.
À meia-noite, quando a ressurreição de Cristo é anunciada, o céu se ilumina com fogos, os sinos ecoam e vozes se unem no canto de Christos Anesti (Cristo ressuscitou).
De volta para casa, ao redor da mesa, começa outro ritual: as famílias se reúnem e desafiam umas às outras a quebrar ovos vermelhos tingidos. Vence quem mantém o ovo intacto — e, com ele, a promessa de sorte para o ciclo que se inicia.
Alemanha
No país germânico, além das árvores e fontes decoradas com ovos coloridos que transformam vilarejos inteiros, existe um ritual vivido à mesa. Na Gründonnerstag, a quinta-feira que antecede o domingo de Páscoa, a tradição convida a consumir alimentos verdes, combinando costumes antigos com um conceito muito atual de sustentabilidade: o consumo de ingredientes locais, sazonais e de base vegetal.
Ervas frescas que começam a brotar com a estação — como espinafre, agrião, salsa, cebolinha e dente-de-leão — dão origem a pratos simbólicos, como a sopa de sete ervas. Um ritual que, entre o passado e o presente, transforma o feriado em algo que também se sente no paladar.
Bermudas
No meio do Atlântico, a Páscoa ganha o céu. Na Sexta-feira Santa, famílias inteiras se reúnem para empinar pipas feitas à mão — uma tradição que teria começado quando um professor tentou explicar a ascensão de Cristo usando uma pipa como metáfora. Construídas com papel colorido, madeira e bambu, muitas delas são tão grandes que exigem mais de uma pessoa para fazê-las voar.
Há também as pipas que “cantam”: conhecidas como hummers, elas vibram no ar, criando um zumbido que ecoa pela ilha. Empinar pipas nas Bermudas é um ritual de conexão, memória e pertencimento, passado de geração em geração.
Austrália

Do outro lado do mundo, na Austrália, a celebração ganhou um novo protagonista. Por lá, o tradicional coelho — introduzido por colonizadores europeus — acabou se tornando uma espécie invasora, responsável por impactos profundos na flora e no equilíbrio do ecossistema local. No lugar dele, surge o bilby: um pequeno marsupial nativo, de orelhas longas, hoje ameaçado de extinção.
Mais do que uma troca de símbolo, essa mudança revela um gesto consciente. Desde a década de 1990, ele aparece em chocolates e presentes de Páscoa e parte das vendas é revertida para projetos de conservação da espécie. Uma tradição onde cada detalhe, até mesmo um doce, pode ajudar a preservar aquilo que ainda resiste.
O que a Páscoa revela sobre um destino
Talvez o mais interessante sobre a Páscoa ao redor do mundo não sejam as diferenças — mas o que elas revelam. E é justamente isso que a torna tão fascinante quando vista pelo mundo: ela nunca é exatamente a mesma.
No fim, viajar também é isso. Aprender a reconhecer, em cada cultura, diferentes maneiras de dizer a mesma coisa — mesmo quando tudo parece completamente diferente.